São Paulo, segunda-feira, 20 de outubro de 2008

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aventura

De bike na metrópole

Jovens que usam a bicicleta como meio de transporte contam a dificuldade de pedalar em SP

Raimundo Pacco/Folha Imagem
Thiago, 12, participa de pedaladas em grupo pela cidade


LUANA VILLAC
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

"Tire essa tranqueira do meio da rua!" Desde que começou a usar a bicicleta para percorrer o trajeto de casa até o trabalho -e deste para a faculdade-, Leandro Cascino Repolho, 19, cansou de ouvir absurdos desse tipo. "Os motoristas de carro em São Paulo são muito impacientes", diz. "Alguns deles até ficam tentando jogar os ciclistas na calçada."
Pedalar na capital paulista é de fato um desafio. Trânsito caótico, ruas esburacadas, motoristas agressivos... A lista de obstáculos enfrentados por quem se aventura pelas ruas de bike é grande.
Apesar disso, muitos acreditam que as recompensas são maiores. É o caso de Leandro. Ele garante que só obteve benefícios desde que adotou as pedaladas como meio de transporte diário, há três meses.
"Minha estratégia é sempre lembrar de que não estou fazendo nada de errado", diz. "Pelo contrário: não estou poluindo o ar, estou praticando um esporte e contribuindo para diminuir o trânsito", afirma.
O entusiasmo pelo pedal é tão grande que acabou virando militância. Toda última sexta-feira do mês, Leandro participa da Bicicletada, evento que reúne cerca de 300 ciclistas na avenida Paulista para defender seus direitos e aumentar sua visibilidade.
Até a universidade do estudante foi intimada a participar da causa. "Eles não tinham bicicletário, então mandei um e-mail para a administração dizendo que era um absurdo uma faculdade daquele porte não se preocupar com o meio ambiente", conta.
Como resultado, a instituição passou a liberar seu estacionamento para as bicicletas. "A cidade não está preparada para o ciclismo, mas por isso mesmo temos que nos manifestar", defende.
Thiago Grecco Santoro, 12, também participa de pedaladas em grupo pela cidade. Todo domingo, ele e seus pais se reúnem com a turma do Olavo Bikers, que sai do bairro de Pinheiros para um percurso de cerca de 40 km pelas ruas paulistanas.
Às terças, ele vai com a mãe ao grupo de mulheres ciclistas Saia na Noite, onde é admitido por ser considerado o mascote. "Andar em grupo é muito mais tranqüilo e ajuda a criar maior segurança."
Fanático por sua bike, Thiago gostaria de usá-la durante a semana para ir à escola, mas ainda não tem autorização dos pais. "Eles acham perigoso, mas quem sabe no ano que vem me deixam ir", torce.
Gabriel Teixeira Beshara, 17, já viveu na pele o perigo que as pedaladas na cidade podem representar. O garoto, que só se locomove de bicicleta, já foi atropelado por um carro saindo de uma garagem. Os danos foram poucos: um pára-brisa quebrado e um queixo machucado, mas o susto foi suficiente para ele redobrar a atenção. "Naquela época, eu achava que andar de bike era como andar a pé", confessa. "Andava sem capacete, na contramão... Hoje sou muito mais prudente."

Um carro a menos
Victor Barreiro Chaves já completou 18 anos, mas, graças a sua bicicleta, não sentiu necessidade de tirar carta.
"Com ela vou para onde quiser, quando quiser", afirma. "Ela me dá a independência de que eu preciso."
Renato Fontanete Lima, 17, também acredita que o carro não é uma necessidade imperativa. "É a minha última prioridade", garante. "Hoje, se eu quiser viajar no Estado de São Paulo, vou de bike, se for para fora, vou de ônibus", resume.
Ele não fala da boca para fora. Recentemente, fez uma viagem de mais de cem quilômetros pelo Rodoanel do Estado, com seis amigos que conheceu em uma bicicletaria.
Renato acredita que as pessoas precisam tomar consciência de que o uso da bicicleta é muito mais sustentável que o dos carros e passar a respeitar o ciclista. "Hoje, eu diria que apenas 30% dos motoristas nos respeitam", contabiliza. "O resto passa zoando, nos fechando, achando que são mais que nós".


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